
A assinatura de um cineasta é a mais difícil das impressões que ele pode deixar por meio da sua arte, porque o cinema é um processo artístico dotado de uma natureza quase que absolutamente verossímil. Essa verossimilhança, que é muito necessária na medida em que tem o objetivo de transportar o espectador para dentro da tela grande, é na verdade o grande obstáculo do cineasta, que deve saber vencê-la, dando ao público os seus óculos e fazendo-o entender aquele mundo que se projeta por um paradigma exclusivamente seu. Esse paradigma é a sua assinatura, o equilíbrio entre a verossimilhança e uma estética só sua. Poucos conseguiram tal feito.
Quentin Tarantino é uma daquelas típicas mentes inventivas que nasceu para contar histórias. Mas não de qualquer jeito, não é só a história que tem importância. Há uma atmosfera, um contexto, uma perspectiva toda particular… Ele pensa em tudo. Mas “só pensar em tudo” não é o que faz dele um bom diretor (e roteirista, e ator e enciclopédia humana). Além de ter essa visão tão ampla das coisas, Tarantino busca inspiração em uma gama tão vasta de outras obras, que um só filme não foi capaz de absorver tantas fontes. Tendo trabalhado nos seus vinte e poucos anos numa locadora de vídeo, Tarantino foi exposto a uma overdose de informações cinematográficas e, como foi abençoado com uma boa mente criativa e também cinéfila, ele canalizou tudo isso para uma produção sem dúvida riquíssima e muito significativa. E é por isso que a trama sangrenta da Noiva (Uma Thurman) que busca vingança contra o seu ex-chefe e ex-amante (David Carradine) teve que ser dividida em dois capítulos: “Kill Bill Vol. 1” (“Kill Bill Vol. 1” – EUA – 2003) e “Kill Bill Vol. 2” (“Kill Bill Vol. 2” – EUA – 2004).
Nada em “Kill Bill Vol. 1” é desproposital, desde antes de o filme começar, o diretor já nos agracia com um toque nostálgico da introdução dos filmes de kung-fu das décadas de 1960 e 1970, há aqui toda a preocupação de se preparar uma atmosfera. Logo em seguida, na sequência de abertura as cores são puxadas mais para o faroeste “spaghetti” de Sergio Leone, (com a onipresente trilha de Enio Morricone em outros momentos), num diálogo entre os dois protagonistas/antagonistas que tornará a se repetir na abertura do segundo volume e que terá uma grande relevância na trama. Logo em seguida, há os créditos de abertura – devo dizer – mais dramáticos da história do cinema (aos quais ele sempre deu muito valor, desde “Cães de Aluguel”, “Pulp Fiction” e “Jackie Brown”), que se concluem no início de uma capitulação no mínimo intrigante: “Capítulo 1 – (2)”. Sim, é para não entender de cara, e só entender no final do filme. E essa técnica de roteiro particular é o que fez o diretor ganhar o Oscar de melhor roteiro original por “Pulp Fiction”. E daí por diante o espectador será presentado com esse combo de diálogos, não-linearidade, uma dramaticidade própria, ângulos absolutamente nostálgicos apresentando uma história envolvente de vingança e amor, que mesmo sendo incrível, acaba sendo o menos importante. Mas acha que terminou aqui? Há mais para ser mostrado.
E é aqui que o diretor retoma a história em seu segundo volume. “Kill Bill Vol. 2” já começa de um jeito diferente, com um apoteótico “Vol. 2” subindo em branco e preto na tela e uma Noiva narrando para o espectadores com um frenesi quase que incontido toda a sua trajetória em busca de vingança. O tom no segundo volume não será o do kung-fu/western que permeia o primeiro, mas sim o da história de amor e ódio. E colaborando para isso, Tarantino se vale de sequências em um preto e branco romântico e um maior intimismo do que no filme anterior. Há um toque mais passional, que leva o público a consolidar a sua união com a Noiva na finalização de sua “Lista de Mortes – 5”. Nesse clima de “missão” que quase sempre vemos o diretor utilizar em seus roteiros é que se apresenta um personagem icônico do cinema de artes marciais, o Pai Mei (Gordon Liu), uma homenagem mais do que merecida ao gênero e muito bem colocada.
Interessantes também são os obstáculos da Noiva, os outros componentes de sua lista de mortes, que vão contribuindo, cada um de seu jeito, com a tonalidade dos dois filmes. Com Vernita Green (Vivica A. Fox) há um duelo mais cru, menos pomposo, algo mais atual. Em seguida aparece O-Ren Ishii (Lucy Liu), que é introduzida através de uma linda sequência de “anime”. Há também Budd (Michael Madsen), numa atmosfera bem semelhante à de “Pulp Fiction”, e logo depois Elle Driver (Daryl Hannah), com uma contribuição relevante em suas duas aparições no primeiro e segundo filme. E, por fim, coroando a brilhante produção de Tarantino até então, com um diálogo de aproximadamente quarenta minutos de muita verborragia, temos Bill. A assinatura de Quentin Tarantino nunca ficou tão clara.
Há tantos outros elementos significativos, desde uma “Pussy Wagon” até uma espada Hatori Hanzo, passando pelo mítico golpe dos “Cinco Pontos que Explodem o Coração” e pela sirene histérica de “Ironside”… Pequenos fatos e objetos que para qualquer cineasta pareceriam triviais, mas que para esse do qual estamos falando são essenciais para tornar as duas partes de “Kill Bill” um ícone no cinema contemporâneo.
Nem precisa de veredicto, porque é simplesmente…

Essa foi a crítica de número 50 do Blog “Uma Meia, Por Favor”. Quando idealizei este blog, eu não tinha ideia de como ele seria importante para mim. Enquanto escrevia cada um desses comentários leigos – que pouco modestamente chamo de “Críticas” – fui percebendo que o meu amor pela sétima arte é algo que tenho por pouquíssimas coisas na minha vida. É um amor semelhante ao que tenho pela minha família, pelos meus amigos, e por tudo o mais que me faz sentir seguro e me faz acreditar que, mesmo nos momentos mais difíceis, se nós temos um sonho, nós devemos lutar por ele. Então só tenho a agradecer, ao cinema e a você, caro leitor, por ter a disposição de compartilhar um pouco desse sonho comigo.
E que 50 filmes sejam só os primeiros!