“Fome de Viver”

Há um tempo atrás, quando estava na fase de conhecer o trabalho de David Bowie e me envolver pelas suas músicas sensacionais, tudo o que envolvesse o seu nome me faria procurar freneticamente por referências, elos com outros cantores, trilhas sonoras de “glam rock” em filmes… Enfim, Bowie era a fonte de inspiração mais bem inspirada que eu tinha. Foi nessa época que eu conheci um filme de 1983 no qual o próprio Bowie contracena com ninguém menos que as – também adoradas – Catherine Deneuve e Susan Sarandon. Um filme com tudo pra ser amor à primeira vista: Ficção científica, na Nova Iorque da década de 1980, com… Vampiros. Esse era “Fome de Viver” (“The Hunger” – EUA – 1983), e posso dizer a vocês que depois que eu assisti fiquei com aquela ligeira sensação: Por que eu não assisti isso antes?

O diretor Tony Scott, que recentemente nos agraciou com aquela tragédia que foi “Incontrolável”, parece um Kubrick moderninho, misturado com o estilo de Fellini. Traduzindo pra bom português, você vai ver uma fotografia sensacional, onde a câmera por vezes passeia com serenidade e frieza pela paisagem novaiorquina ao mesmo tempo em que mostra quadros enigmáticos e, muitas vezes, oblíquos que demoraremos um pouco para entender o que significam. A sequência de abertura tem planos super-ultra-rápidos nos quais a história vai se contando aos poucos, e ao tempo em que os personagens de Deneuve e de Bowie fazem suas primeiras vítimas (não tão inocentes), o filme também já nos conquistou. Uma curiosidade interessante é que a música dessa cena se chama “Bela Lugosi’s Dead”, interpretada por Bahaus. O Bela Lugosi do título da canção é na verdade um ator húngaro conhecido por sua clássica interpretação do Conde Drácula no filme de 1931 dirigido por Tod Browning. Isso é pra quem, como eu, adora descobrir essas brincadeirinhas nos filmes.

A trama é bem simples na verdade, pra não estragar a experiência com um spoiler, vou apenas dizer que a tal fome de viver talvez seja muito mais do que uma sede de sangue dos vampiros do filme, talvez seja também uma metáfora sobre a efemeridade de tudo, até mesmo daquilo que deveria ser eterno. Talvez a própria diegese de uma ficção científica reforça a ideia de que não se pode fugir do inevitável ciclo da existência, pois o expectador é confrontado com a frustração da personagem de Susan Sarandon ao analisar a peculiar situação de alguns macacos de laboratório.

A propósito, não espere transformações em morcegos nem caninos crescendo na boca dos vampiros. Tony Scott lembra bem que estamos na Grande Maçã da sempre revistada década de 1980, de forma que os vampiros aqui vão parecer muito mais um grupo de intelectuais com o melhor figurino gótico que Manhattan tinha para oferecer, e uma atitude totalmente cult. Como o filme todo traz. Nada a ver com os pomposos medievais de “Entrevista com o Vampiro”, nem com os Vampiros-Jonas-Borthers da Saga Crepúsculo.

Viu só? Existe filme de vampiro que valha a pena.

O veredicto?

 

“Pânico 4″

Quando começou a se espalhar a notícia de que o Facebook teria um filme sobre ele, e apareceu o primeiro teaser-trailer de “A Rede Social”, minha reação espontânea foi supor que se trataria de um filme-conceito onde a tal rede seria apenas o pretexto para apresentar histórias fictícias voltadas à nova forma de vida dos jovens, às novas amizades… Algo nessa linha. É meio que uma coisa que eu faço quando vejo um teaser ou pôster ou capa de livro, eu crio antes uma história na minha cabeça que muitas vezes não tem nada a ver com o conteúdo verdadeiro. É evidente que eu estava enganado em minha “previsão imaginativa” (apesar de o filme de Fyncher não ter me frustrado em momento algum), mas mal sabia eu que um filme com essas exatas características iria ser lançado logo depois, e num gênero acima de qualquer possibilidade de previsão nesse sentido. Um filme de terror fruto de uma das franquias mais exploradas da década de 1990, talvez ainda mais aguardado do que “A Rede Social”, e que estava prestes a ter um reboot levado à tela grande: “Pânico 4” (“Scream 4” – EUA – 2010).

Não que o novo de Wes Craven venha para abalar as estruturas da cinematografia contemporânea, vamos devagar. Continua sendo um filme de terror adolescente, mas com severas melhoras. Na verdade, não são tanto melhoras, são mais adaptações ao contexto do cinema de hoje, porque nos anos 1990 a qualidade das produções destinadas ao público mais jovem não era tão grande como hoje. Há mesmo uma lapidação não só nos elementos técnicos, nos ângulos explorados nas cenas de perseguição de Ghostface e em alguns momentos tensos. Um detalhe interessante é que o próprio Ghostface conversa mais um pouco, mostra mais sua cara, uma abertura maior no roteiro para explorar esse assassino já clássico no cinema de horror.

Mas o que de melhor o quarto filme tem a trazer é uma exacerbação na sua metalinguagem característica. Na franquia “Pânico” o diferencial não é o assassino de Máscara Branca (Bocejando? É o que parece pra mim…) nem a permanência dos três personagens originais, mas sim a constante exploração da metalinguagem sobre filmes de terror. Ver referências (e até uma crítica bem ferina) a “Jogos Mortais” e à própria infindável sequência de filmes da série (com a apresentação do fictício “Stab” volumes 5, 6, 7…) dão o toque especial do filme, principalmente quando são comentadas pelos personagens através de mensagens de texto, aplicativos no iPhone, publicações no Facebook e vídeos no Youtube, conferências pelo celular no viva-voz e é aí que percebemos… Essa história está acontecendo hoje! Dá mais medo, e faz o que eu achava que o filme do Facebook ia fazer, mostra como a vida da gente mudou dos anos 1990 pros anos 2010. Cinema de bom gosto ocultado por muitas facadas e sangue espalhado pelo set.

E eles estão de volta também, a eterna vítima Sidney Prescot (Neve Campbell) e o casal fictício que já foi na vida real, Gale Weathers (Courtney Cox) e Dewey (David Arquette), este último graças a Deus está andando direito. Eles mudam também? Levemente… Mas é bom que permaneçam como eram na primeira trilogia. Afinal, foi assim que aprendemos a gostar deles. Quanto ao resto do elenco… Não quero fazer spoilers.

Na era da hiper-realidade, “Pânico 4” sabe expressar perfeitamente o que é viver no mundo da celebridade instantânea. Quando fala em “nova década, novas regras”, Wes Craven provavelmente está querendo dizer que hoje ninguém mais vai ler os livros de Gale Weathers sobre os assassinatos em Woodsboro, tão comentados na trilogia antiga. Agora vão ver tudo no Youtube por live streaming.

*E, a propósito, não que eu vá matar alguém ou ser assassinado pelo Ghostface, mas como minha vida está um corre-corre danado, em breve as críticas do “Uma Meia, Por Favor” também vão estar no Youtube (Juro que não vai ser um vlog do tipo “Felipe Neto” ou “P C Siqueira”!). Não só as críticas, vamos ter novidades. Aguardem!

O veredicto?

 

Especial “Um Oscar, Por Favor”

Gente, chegou a grande noite!!
É o primeiro especial do oscar do blog “Uma Meia, Por Favor”
Eu e o Felipe Fonseca vamos comentar e, por favor, sintam-se todos à vontade pra entrar na brincadeira também!!!
É a noite do Oscar, e todo mundo tem uma opinião pra dar, não é mesmo?

Então vamos lá, cliquem no link abaixo, incorporem o Rubens Ewald Filho, e vamos ver a grande noite do Cinema todos juntos!

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“Kill Bill”

A assinatura de um cineasta é a mais difícil das impressões que ele pode deixar por meio da sua arte, porque o cinema é um processo artístico dotado de uma natureza quase que absolutamente verossímil. Essa verossimilhança, que é muito necessária na medida em que tem o objetivo de transportar o espectador para dentro da tela grande, é na verdade o grande obstáculo do cineasta, que deve saber vencê-la, dando ao público os seus óculos e fazendo-o entender aquele mundo que se projeta por um paradigma exclusivamente seu. Esse paradigma é a sua assinatura, o equilíbrio entre a verossimilhança e uma estética só sua. Poucos conseguiram tal feito.

Quentin Tarantino é uma daquelas típicas mentes inventivas que nasceu para contar histórias. Mas não de qualquer jeito, não é só a história que tem importância. Há uma atmosfera, um contexto, uma perspectiva toda particular… Ele pensa em tudo. Mas “só pensar em tudo” não é o que faz dele um bom diretor (e roteirista, e ator e enciclopédia humana). Além de ter essa visão tão ampla das coisas, Tarantino busca inspiração em uma gama tão vasta de outras obras, que um só filme não foi capaz de absorver tantas fontes. Tendo trabalhado nos seus vinte e poucos anos numa locadora de vídeo, Tarantino foi exposto a uma overdose de informações cinematográficas e, como foi abençoado com uma boa mente criativa e também cinéfila, ele canalizou tudo isso para uma produção sem dúvida riquíssima e muito significativa. E é por isso que a trama sangrenta da Noiva (Uma Thurman) que busca vingança contra o seu ex-chefe e ex-amante (David Carradine) teve que ser dividida em dois capítulos: “Kill Bill Vol. 1” (“Kill Bill Vol. 1” – EUA – 2003) e “Kill Bill Vol. 2” (“Kill Bill Vol. 2” – EUA – 2004).

Nada em “Kill Bill Vol. 1” é desproposital, desde antes de o filme começar, o diretor já nos agracia com um toque nostálgico da introdução dos filmes de kung-fu das décadas de 1960 e 1970, há aqui toda a preocupação de se preparar uma atmosfera. Logo em seguida, na sequência de abertura as cores são puxadas mais para o faroeste “spaghetti” de Sergio Leone, (com a onipresente trilha de Enio Morricone em outros momentos), num diálogo entre os dois protagonistas/antagonistas que tornará a se repetir na abertura do segundo volume e que terá uma grande relevância na trama. Logo em seguida, há os créditos de abertura – devo dizer – mais dramáticos da história do cinema (aos quais ele sempre deu muito valor, desde “Cães de Aluguel”, “Pulp Fiction” e “Jackie Brown”), que se concluem no início de uma capitulação no mínimo intrigante: “Capítulo 1 – (2)”. Sim, é para não entender de cara, e só entender no final do filme. E essa técnica de roteiro particular é o que fez  o diretor ganhar o Oscar de melhor roteiro original por “Pulp Fiction”. E daí por diante o espectador será presentado com esse combo de diálogos, não-linearidade, uma dramaticidade própria, ângulos absolutamente nostálgicos apresentando uma história envolvente de vingança e amor, que mesmo sendo incrível, acaba sendo o menos importante. Mas acha que terminou aqui? Há mais para ser mostrado.

E é aqui que o diretor retoma a história em seu segundo volume. “Kill Bill Vol. 2” já começa de um jeito diferente, com um apoteótico “Vol. 2” subindo em branco e preto na tela e uma Noiva narrando para o espectadores com um frenesi quase que incontido toda a sua trajetória em busca de vingança. O tom no segundo volume não será o do kung-fu/western que permeia o primeiro, mas sim o da história de amor e ódio. E colaborando para isso, Tarantino se vale de sequências em um preto e branco romântico e um maior intimismo do que no filme anterior. Há um toque mais passional, que leva o público a consolidar a sua união com a Noiva na finalização de sua “Lista de Mortes – 5”. Nesse clima de “missão” que quase sempre vemos o diretor utilizar em seus roteiros é que se apresenta um personagem icônico do cinema de artes marciais, o Pai Mei (Gordon Liu), uma homenagem mais do que merecida ao gênero e muito bem colocada.

Interessantes também são os obstáculos da Noiva, os outros componentes de sua lista de mortes, que vão contribuindo, cada um de seu jeito, com a tonalidade dos dois filmes. Com Vernita Green (Vivica A. Fox) há um duelo mais cru, menos pomposo, algo mais atual. Em seguida aparece O-Ren Ishii (Lucy Liu), que é introduzida através de uma linda sequência de “anime”. Há também Budd (Michael Madsen), numa atmosfera bem semelhante à de “Pulp Fiction”, e logo depois Elle Driver (Daryl Hannah), com uma contribuição relevante em suas duas aparições no primeiro e segundo filme. E, por fim, coroando a brilhante produção de Tarantino até então, com um diálogo de aproximadamente quarenta minutos de muita verborragia, temos Bill. A assinatura de Quentin Tarantino nunca ficou tão clara.

Há tantos outros elementos significativos, desde uma “Pussy Wagon” até uma espada Hatori Hanzo, passando pelo mítico golpe dos “Cinco Pontos que Explodem o Coração” e pela sirene histérica de “Ironside”… Pequenos fatos e objetos que para qualquer cineasta pareceriam triviais, mas que para esse do qual estamos falando são essenciais para tornar as duas partes de “Kill Bill” um ícone no cinema contemporâneo.

Nem precisa de veredicto, porque é simplesmente…

Essa foi a crítica de número 50 do Blog “Uma Meia, Por Favor”. Quando idealizei este blog, eu não tinha ideia de como ele seria importante para mim. Enquanto escrevia cada um desses comentários leigos – que pouco modestamente chamo de “Críticas” – fui percebendo que o meu amor pela sétima arte é algo que tenho por pouquíssimas coisas na minha vida. É um amor semelhante ao que tenho pela minha família, pelos meus amigos, e por tudo o mais que me faz sentir seguro e me faz acreditar que, mesmo nos momentos mais difíceis, se nós temos um sonho, nós devemos lutar por ele. Então só tenho a agradecer, ao cinema e a você, caro leitor, por ter a disposição de compartilhar um pouco desse sonho comigo.

E que 50 filmes sejam só os primeiros!

“Cisne Negro”

Roteiros de filmes que exploram conflitos psicológicos tendem a cair na mesmice de restringir sua trama à perspectiva do protagonista e permanecer numa indistinta confusão que somente ao fim é explicada com um olhar exterior. Indo contra esse ciclo vicioso, Darren Aronofsky nos traz em “Cisne Negro” (“Black Swan” – EUA – 2010) uma trama complexa, com mais recheio do que o trivial e pintada com cores que saltam aos olhos.

Na trama, Natalie Portman interpreta uma bailarina veterana extremamente dedicada que se vê frustrada por não ter conseguido um papel de muita relevância em seu grupo até que é selecionada para interpretar a Rainha Cisne no espetáculo “O Lago dos Cisnes”. Entretanto, o que se segue a essa aparente vitória dessa “doce menina” é um verdadeiro caos enquanto ela tenta lutar consigo mesma pela perfeição requerida pelo seu diretor (Vincent Cassel) para a performance da personagem, com a opressão de uma mãe exigente e superprotetora (Barbara Hershey) e para não se deixar ofuscar por uma intrigante novata que lhe aparece como suposta adversária (Mila Kunis)  para mexer com todas a suas inseguranças. Natalie Portman faz um bom papel, sem dúvida alguma, pois sabe transmitir a leveza e suavidades do jeito de bailarina, mas em termos de dramaticidade é bem verdade que ela relaxa um pouco em mostrar o conflito interno de sua esforçada personagem, confiando no atrativo daquele entre as duas bailarinas (falo isso sem querer parodiar o exigente personagem de Vincent Cassel), mas ainda assim seu trabalho não deixa muito a desejar. Por outro lado, Mila Kunis e Winona Rider (sim, ela também está no filme!) dão um toque simbólico de dramaticidade e conflito que é muito relevante para o bom desempenho do filme.

Aronofsky tem um manejo particular da câmera e dos movimentos. Se em “Réquiem para um Sonho” e “O Lutador” os quadros denotavam um certo intimismo com seu excesso de “close-ups”, e cortes rápidos, em “Cisne Negro” tudo isso se soma a uma câmera que também faz balé, com tomadas em “dolly”, panorâmicas e “tracks” muito bem colocados tanto nos ensaios quanto nas apresentações da personagem de Portman. Some-se a isso uma fotografia um tanto obscura e cheia de um certo impressionismo exigido pela trama de caráter psicológico, e então fica bem claro porque este filme conquistou a crítica desde antes de estrear. Para terminar, o roteiro que ambienta a história no mundo do balé e em torno de uma apresentação tão famosa como “O Lago dos Cisnes” sabe dizer a que veio. Tudo se apresenta com uma metalinguagem muito atraente e deliciosa de se acompanhar até o final.

É difícil achar beleza no trágico, e um trabalho mais árduo ainda é saber mostrá-la. No entanto, dirigindo “Cisne Negro”, Darren Aronofsky provou que por mais difícil que seja, esse não é um trabalho impossível. “Cisne Negro” acaba sendo uma baforada de ar fresco numa época de estagnação do cinema de drama.

O veredicto?

“O Discurso do Rei”

Há algum tempo Hollywood vem percebendo que histórias de superação têm o seu apelo especial. Somando-se a isto, a experiência tem mostrado que os melhores filmes são aqueles sabem encontrá-las onde menos se espera e que as apresentam ao expectador da forma mais inovadora. Em “O Discurso do Rei” (“The King’s Speech” – Inglaterra – 2010) o diretor Tom Hooper apresenta novamente ao público o clássico conflito do protagonista consigo mesmo, o tipo de argumento que já rendeu premiações a tantos outros diretores e atores, mas dessa vez ele inova, avançando com segurança pelos terrenos da estética e da técnica.

A superação da vez é a do Príncipe Albert (Colin Firth), que luta contra um sério problema de gagueira, problema totalmente incompatível com a notória vida pública que leva. Buscando auxílio para o marido, a sua esposa (Helena Bonham Carter) acaba por encontrar Lionel Logue (Geoffrey Rush), um ator de origem australiana especialista em técnicas de eloquência pouco usuais, para que ele ajude o príncipe a superar o seu problema. Nesse trio central, é gratificante perceber como, aos poucos a interação vai se formando de forma natural e fluida, sem entraves que por vezes podem ser a danação de um ótimo roteiro. Aqui temos um trio central em perfeita harmonia, e isso facilita bastante o trabalho do diretor.

O que primeiro poderá chamar a atenção de um expectador mais atento são os ângulos ousados escolhidos por Tom Hooper. Mas a sua escolha é bem justificada, pois a cenografia de uma diegese que se situa na Londres da década de 1940 permite que o diretor faça esses novos malabarismos com a câmera. É claro que é um trabalho muito perigoso, mas em seu desempenho ele se sai muito bem. Outra ousadia do diretor são os planos alternados, que estão em constante mutação, dando aos diálogos (especialmente os de Albert e Logue) um ritmo totalmente novo. Se a gagueira do personagem central poderia ser um obstáculo para prender a atenção do público, a forma com os diálogos são apresentados transpõe essa barreira, e a gagueira só é problema quando o diretor quer mostrá-la dessa forma; quando ele não quer, ela é um mero elemento cênico. Tudo feito com o cuidado meticuloso de não tornar o filme maçante ou mesmo cansativo.

O roteiro de David Seidler é também um presente. Isso porque a história poderia ser explorada de formas tão diversas, e tão exteriores – por se tratar de fatos reais e envolvendo personagens notórios – mas ele sabiamente prefere que não seja assim. Ao contrário, Seidler direciona o foco do roteiro para a o problema central de Albert, suas causas e repercussões. Isso fica muito claro na cena em que o ele, nessa altura já sendo rei, vê um cine-jornal em que Hitler discursa freneticamente à Alemanha nazista e uma de suas filhas pergunta-o o que Hitler está dizendo e ele responde que não sabe, o que sabe é que ele está dizendo muito bem. Prova inequívoca de um roteiro centrado, que não se perde em sua proposta.

“O Discurso do Rei” faz jus à repercussão que teve até então, e um mero resumo seria muito infiel com toda a maravilhosa experiência que esse grande filme pode proporcionar. Se toda a história culmina no discurso do título, é bem verdade que esse clímax só consegue ser tão proveitoso graças ao excelente trabalho de uma ótima direção aliada a elenco e produção de primeira. Eis aqui  um grande filme.

O veredicto?

“Forrest Gump – O Contador de Histórias”

Tom Hanks é um ator de múltiplos momentos. Há o Tom Hanks de “Quero ser Grande”, o de “Filadélfia” o de “O Código da Vinci” e o de “Forrest Gump – O Contador de Histórias”(“Forrest Gump” – EUA – 1994). Evidentemente, o de “Forrest Gump”, sob a direção de Robert Zemeckis, é aquele que lhe consolidaria como um dos maiores atores da contemporaneidade. Mas esse mérito não foi somente dele.

Aliado ao talento de Hanks temos um roteiro de primeira qualidade. Se o personagem-título não fosse Forrest, as crônicas infindáveis que ele narra sobre sua própria vida (e sobre como ela influenciou tantos fatos e tantas outras vidas) poderiam muito bem passar por um relato histórico dos Estados Unidos até a Década de 1990. Mas tudo isso adquire uma suavidade e uma cadência que somente através da narrativa do personagem principal poderíamos entender. É uma obra muito bem pensada, com uma mensagem tocante para aquele que se dispuser a percebê-la.

No universo de Forrest, portador de debilidade mental, o mundo divide-se no hoje e no que se passou. O hoje ele compartilha com os ouvintes que se revesam junto a ele no banco da parada de ônibus, o mais notável ícone do filme. Os ouvintes, por vezes apáticos e por vezes participativos, vão mostrando que são as pessoas comuns que fazem os excepcionais, e gradualmente o expectador percebe que a história de Forrest não tem nada de trivial. E nessa história, no que se passou, ele divide o palco com personagens quase tão brilhantes quanto ele próprio. Sally Field no papel da mãe sábia, com suas frases de efeito repetidas pelo protagonista por quase todo o filme, é de uma doçura inigualável. Temos ainda personagens mais periféricos que ainda assim contribuem muito para o bom desempenho do filme, entre eles Robin Wright Penn, como a amada e praticamente inatingível Jenny, e Gary Sinise como o Tenente Dan Taylor. Eles ajudam a mostrar a força da superação em seus mais diferentes aspectos.

É um filme sobre como a vida pode ser exaustivamente planejada e nunca vivida plenamente, sobre como nunca se tem o controle sobre ela, mas ainda assim ela não pode ser vista como uma tragédia. É inevitável comparar “O Curioso Caso de Benjamin Button” com este filme, ainda que o filme estrelado por Brad Pitt venha de uma obra mais antiga, que no entanto não tinha as feições diegéticas que lhe foram dadas na adaptação à tela grande. Essa comparação não é de longe um aspecto negativo, muito pelo contrário, é um corolário de como um filme pode inovar, a ponto de criar um novo paradigma de roteiro. Robert Zemeckis – um dos mais fiéis pupilos de Steven Spielberg – junto com o roteirista Eric Roth fizeram o dever de casa. E foram também compensados, juntamente com Hanks, com três dos seis Oscars que o filme recebeu.

É um daqueles filmes pelo qual eu tenho a maior admiração, porque eles servem à função que eu considero ser a mais importante do cinema: mudar vidas.

O veredicto?